Barriga estufada logo depois de comer, gases em excesso, diarreia ou intestino preso que não melhoram com mudanças na alimentação. Esses sintomas são muito comuns e podem ter várias causas. Uma delas, cada vez mais investigada, é o supercrescimento bacteriano do intestino delgado, conhecido pela sigla em inglês SIBO.
Resposta rápida: SIBO é o excesso de bactérias no intestino delgado, a parte do intestino que normalmente tem poucas bactérias. Essas bactérias fermentam os alimentos antes da hora e produzem gases, causando distensão, dor e alterações do hábito intestinal. O principal exame usado para investigar o problema é o teste respiratório do hidrogênio expirado, um exame simples, sem agulhas e sem sedação, que mede os gases produzidos pelas bactérias a partir do ar que você sopra.
O que é SIBO
O intestino humano abriga trilhões de microrganismos, mas eles não se distribuem de forma igual. A maior parte vive no intestino grosso (cólon). O intestino delgado, onde acontece a maior parte da absorção dos nutrientes, tem uma quantidade bem menor de bactérias, graças a mecanismos de proteção como a acidez do estômago, os movimentos intestinais que "varrem" o conteúdo para frente e a válvula ileocecal, que separa o intestino delgado do grosso.
Quando algum desses mecanismos falha, as bactérias se multiplicam além do normal no intestino delgado. É isso que se chama de SIBO (do inglês small intestinal bacterial overgrowth, supercrescimento bacteriano do intestino delgado).
SIBO e IMO: qual a diferença
Além das bactérias, alguns microrganismos chamados arqueias produzem metano em vez de hidrogênio. O excesso desses produtores de metano recebeu um nome próprio: IMO (intestinal methanogen overgrowth, supercrescimento de metanogênicos intestinais). O IMO está mais associado à constipação, enquanto o SIBO por hidrogênio está mais ligado a distensão e diarreia. Os dois quadros podem aparecer juntos.
Sintomas de SIBO
Os sintomas não são exclusivos do SIBO e se confundem com os de outras condições, como a síndrome do intestino irritável, intolerâncias alimentares e doença celíaca. Os mais comuns são:
Distensão e estufamento abdominal, que pioram ao longo do dia ou após as refeições;
Excesso de gases e flatulência;
Dor ou desconforto abdominal;
Diarreia, constipação ou alternância entre os dois;
Náuseas;
Nos casos mais intensos, perda de peso, fezes gordurosas e deficiências de nutrientes, como vitamina B12 e ferro.
Importante: perda de peso sem explicação, sangue nas fezes, anemia, febre, diarreia que acorda você à noite e início dos sintomas depois dos 45 anos são sinais de alerta. Nesses casos, a investigação costuma incluir outros exames, como endoscopia ou colonoscopia, antes de atribuir tudo ao SIBO.
Quem tem mais risco de desenvolver SIBO
O SIBO geralmente é consequência de algo que alterou as defesas naturais do intestino delgado. Entre as situações associadas estão:
Alterações da motilidade intestinal: diabetes de longa data, hipotireoidismo, esclerodermia e outras condições que deixam o intestino mais lento;
Cirurgias do aparelho digestivo: cirurgia bariátrica, retirada da válvula ileocecal e outras que alteram a anatomia do intestino;
Redução da acidez do estômago: uso prolongado de medicamentos que reduzem o ácido gástrico, embora essa associação ainda seja discutida;
Doenças intestinais e de outros órgãos: doença de Crohn, doença celíaca, pancreatite crônica e cirrose;
Divertículos no intestino delgado e aderências de cirurgias abdominais anteriores;
Idade avançada, pela combinação de vários desses fatores.
Medicamentos que retardam o trânsito digestivo, como os opioides, também entram na lista de fatores a considerar. As canetas usadas no tratamento da obesidade diminuem a velocidade do esvaziamento do estômago e podem causar sintomas digestivos semelhantes, o que reforça a importância de uma avaliação cuidadosa. Leia mais sobre esse tema em refluxo piorou depois do uso das canetas?
Como funciona o teste do hidrogênio expirado
O organismo humano não produz hidrogênio nem metano. Esses gases são gerados apenas por microrganismos do intestino quando fermentam carboidratos. Parte do gás produzido é absorvida pelo intestino, cai na corrente sanguínea e é eliminada pelos pulmões. Por isso, medir o gás no ar expirado mostra, de forma indireta, quando e quanto os microrganismos estão fermentando.
Passo a passo do exame
Coleta basal: em jejum, você sopra em um dispositivo ou em uma bolsa de coleta para medir o nível inicial dos gases.
Ingestão do substrato: você bebe uma solução com um açúcar específico, geralmente glicose ou lactulose.
Coletas seriadas: novas amostras de ar são coletadas em intervalos regulares, geralmente a cada 15 a 20 minutos, por cerca de duas a três horas.
Análise: o aparelho mede a concentração de hidrogênio (e, quando o equipamento permite, de metano) em cada amostra, e o resultado é interpretado pela médica junto com os seus sintomas.
O exame não dói, não usa agulhas nem sedação. Você pode ficar sentado e aguardar entre as coletas, por isso vale levar algo para ler. Durante o teste, não se deve comer, fumar nem fazer esforço físico.
Como o resultado é interpretado
Em uma pessoa sem SIBO, o açúcar só encontra muitas bactérias quando chega ao intestino grosso, o que leva tempo. Se os gases sobem cedo demais, isso sugere fermentação ainda no intestino delgado. Pelos critérios do Consenso Norte-Americano de testes respiratórios e da diretriz do American College of Gastroenterology:
SIBO: aumento de hidrogênio de 20 partes por milhão (ppm) ou mais em relação ao valor basal, nos primeiros 90 minutos após o substrato;
IMO: metano de 10 ppm ou mais em qualquer momento do exame, quando o equipamento mede esse gás.
Glicose ou lactulose: qual a diferença
Característica Teste com glicose Teste com lactulose Como o açúcar se comporta É absorvida rapidamente na primeira parte do intestino delgado Não é absorvida e percorre todo o intestino delgado até o intestino grosso Região avaliada Principalmente o intestino delgado proximal Todo o intestino delgado Ponto forte Resultado positivo tende a ser mais específico Pode detectar supercrescimento em porções mais distantes Limitação Pode não detectar SIBO nas porções finais do intestino delgado Trânsito intestinal rápido pode gerar resultado falso positivo Dose usual (Consenso Norte-Americano) 75 g 10 g
A escolha do substrato é feita pela médica conforme a sua história clínica. O mesmo tipo de teste respiratório, com outros açúcares como lactose ou frutose, também é usado para investigar intolerâncias alimentares.
Preparo para o teste respiratório
O preparo é o que garante um resultado confiável. As orientações abaixo são as mais usadas nos consensos internacionais; siga sempre a folha de preparo entregue no agendamento, que pode ter ajustes para o seu caso.
Antibióticos: não ter usado nas quatro semanas anteriores ao exame;
Colonoscopia: aguardar cerca de quatro semanas após o preparo intestinal de uma colonoscopia;
Laxantes e medicamentos que aceleram o intestino: costumam ser suspensos cerca de uma semana antes, se houver liberação médica;
Dieta na véspera: refeições com poucos carboidratos fermentáveis no dia anterior, evitando massas, pães, feijão, leite, frutas e fibras, conforme a lista do preparo;
Jejum: de 8 a 12 horas antes do exame;
No dia do exame: não fumar, não mascar chiclete, não fazer exercício intenso e escovar os dentes antes de sair de casa.
Não suspenda remédios de uso contínuo por conta própria. Se você usa medicamentos para diabetes, tireoide, pressão ou outros tratamentos, informe no agendamento para receber a orientação correta.
O teste respiratório fecha o diagnóstico sozinho?
Não. O teste respiratório é uma ferramenta muito útil, mas o diagnóstico de SIBO é sempre clínico: une os sintomas, a história, os fatores de risco e o resultado do exame. O teste pode dar falso positivo, por exemplo quando o trânsito intestinal é muito rápido, e falso negativo, como quando as bactérias produzem outros gases que o aparelho não mede. Por isso, a interpretação deve ser feita por um médico, e não apenas pelo número no laudo.
Como é o tratamento
O tratamento tem dois objetivos: reduzir o excesso de microrganismos e, sempre que possível, corrigir a causa que permitiu o supercrescimento. Em geral envolve antibióticos específicos, escolhidos conforme o tipo de gás encontrado no exame, além de ajustes alimentares temporários e do controle das condições associadas.
Sem a correção da causa de base, o SIBO pode voltar. Por isso, o acompanhamento é parte do tratamento. Tratar "no escuro", apenas com base nos sintomas, ou seguir dietas muito restritivas por conta própria por longos períodos pode atrasar o diagnóstico de outras doenças e causar deficiências nutricionais.
Em resumo
SIBO é o excesso de bactérias no intestino delgado, que causa distensão, gases, dor e alteração do hábito intestinal.
IMO é o excesso de microrganismos produtores de metano, mais ligado à constipação.
O teste do hidrogênio expirado é simples, não invasivo e mede os gases produzidos pela fermentação.
O preparo correto é essencial para um resultado confiável.
O resultado sempre deve ser interpretado junto com a avaliação clínica, e o tratamento inclui corrigir a causa de base.
Perguntas frequentes
O que significa SIBO?
SIBO é a sigla em inglês para small intestinal bacterial overgrowth, ou supercrescimento bacteriano do intestino delgado. É o aumento anormal da quantidade de bactérias no intestino delgado, que provoca fermentação excessiva dos alimentos e sintomas como estufamento, gases e diarreia.
O teste do hidrogênio expirado dói?
Não. O exame consiste em soprar em um dispositivo ou em uma bolsa de coleta antes e depois de beber uma solução com açúcar. Não há agulhas, sedação nem qualquer procedimento invasivo.
Quanto tempo dura o teste respiratório para SIBO?
Em geral, de duas a três horas, com coletas de ar a cada 15 a 20 minutos. O tempo exato depende do protocolo e do substrato usado.
Posso tomar meus remédios antes do teste?
Depende do medicamento. Antibióticos precisam ter sido interrompidos há pelo menos quatro semanas, e laxantes e medicamentos que aceleram o intestino costumam ser suspensos cerca de uma semana antes, com liberação médica. Medicamentos de uso contínuo não devem ser interrompidos sem orientação.
Qual a diferença entre SIBO e síndrome do intestino irritável?
A síndrome do intestino irritável é um distúrbio da interação entre intestino e cérebro, diagnosticado pelos sintomas e pela exclusão de outras doenças. O SIBO é uma alteração da quantidade de bactérias no intestino delgado. Os sintomas se parecem e as duas condições podem coexistir, por isso a avaliação médica é importante para diferenciá-las.
SIBO tem cura?
O SIBO costuma responder bem ao tratamento. No entanto, se a causa que favoreceu o supercrescimento não for identificada e controlada, ele pode voltar. O acompanhamento médico ajuda a reduzir as recidivas.
O mesmo teste serve para intolerância à lactose?
O princípio é o mesmo, mas o açúcar usado muda. Para investigar intolerância à lactose, o substrato é a própria lactose; para frutose, a frutose. O tipo de teste é escolhido pela médica conforme a suspeita clínica.
Agende seu teste respiratório
A Dra. Daniele Ogg é gastroenterologista (CRM PR 31864 | RQE 23218) e realiza o teste respiratório do hidrogênio expirado em Ivaiporã (PR), além de consultas presenciais e on-line. Se você convive com estufamento, gases e alterações do intestino sem uma explicação clara, uma avaliação ajuda a definir se o teste é indicado e qual o melhor caminho para o diagnóstico.
Agendar teste respiratório pelo WhatsApp
Se os seus sintomas incluem sinais de alerta, como sangue nas fezes ou perda de peso, a colonoscopia pode fazer parte da investigação. Saiba mais em colonoscopia: como funciona, para que serve e quando fazer.
Referências
Rezaie A, et al. Hydrogen and Methane-Based Breath Testing in Gastrointestinal Disorders: The North American Consensus. American Journal of Gastroenterology, 2017.
Pimentel M, et al. ACG Clinical Guideline: Small Intestinal Bacterial Overgrowth. American Journal of Gastroenterology, 2020.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica. Não inicie, suspenda ou altere tratamentos sem orientação do seu médico.
